ANTROPOFAGIA MUSICAL BRASILEIRA: O FIO QUE NÃO SE ROMPE
SÉRGIO PEREIRA
“A corrente elétrica da cultura é sempre em mão dupla. Tudo que vai, vem, tudo que toca é tocado.” (LENINE, encarte do CD “O dia em que faremos contato”)
FORJANDO O FIO
Desde a década de 1920, os meios intelectual e musical tupiniquins tentam consolidar o que é ser brasileiro na música, a partir do mito da convivência racial pacífica e da visão da “musicalidade latente” do povo brasileiro, ou seja, da associação de suas manifestações folclóricas e tradicionais com os gêneros e técnicas eruditas européias ou populares norte-americanas no entroncamento com nosso “talento musical nato”, que segundo alguns, fez parir uma “identidade nacional musical”.
A partir desse dialogismo musical, encontram-se elementos que remetem aos ideais antropofágicos da Semana de Arte Moderna de 1922. Como exemplo na música popular, podemos citar a apropriação de gêneros (rock, jazz, soul, funk, blues) e instrumentos estrangeiros (guitarra, contrabaixo, bateria, teclados) aos ritmos e instrumentos reconhecidos como sendo “brasileiros” (baião, coco, samba, maracatu, frevo, ijexá; instrumentos como o tambor de alfaia e o violão de sete cordas) ou a reciclagem das formas e gêneros eruditos importados em novos produtos que, após receberem certas características sonoras serão rotulados de “música brasileira”, como é o caso do choro, que é a junção de diversos gêneros musicais populares europeus (mazurca, valsa, polca, schottisch) reunidos na forma erudita rondó e adaptados ao “gingado brasileiro”. (SÉVE: 1999, 11).
Caetano Veloso, ao tentar explicar o início do movimento tropicalista, reúne dados que os liga aos modernistas:
Nós, brasileiros, não deveríamos imitar e sim devorar a informação nova, viesse de onde viesse, ou, nas palavras de Haroldo de Campos, “assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidades locais ineludíveis que dariam ao produto resultante um caráter autônomo e lhe confeririam, em princípio a possibilidade de passar a funcionar por sua vez num confronto internacional, como produto de exportação.” [...] A cena da deglutição do padre d. Pero Fernandes Sardinha pelos índios passa a ser a cena inaugural da cultura brasileira, o próprio fundamento da nacionalidade. [...]. (VELOSO: 1997, 247).
Continue lendo em: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.



